Eu fui pra esse teatro hoje motivada pelo André. Uma coisa sem pé nem cabeça, já que além de achá-lo gatinho e ótimo baterista, eu não sei nada sobre a vida do André...e além do mais eu já sabia que ele não estaria lá hoje, porque a Camila me disse que ele foi viajar. Mas de alguma forma eu me sentia mais próxima dele porque pegaria os convites com a mãe dele, e assistiria o pai dele regendo a Orquestra de São Paulo...e sei lá, de repente me sentia dentro da vida dele.
O André é esse tipo de pessoa que consegue fazer a gente feliz com sua simples existência. Não precisa virar meu amigo, nem precisa querer me beijar (como eu quero beijá-lo desde a primeira vez que o vi), basta eu lembrar do rosto dele - bochechas rosadinhas de Papai Noel - que isso me faz feliz. O André parece dizer coisas com os olhos, mesmo quando não está falando nada.
Fiquei esperando a mãe dele chegar, sem saber se conseguiria pegar os convites, afinal eu só vi a mãe do André uma vez e não me lembrava direito dela, e se ela não fosse com o vestido vermelho tudo daria errado. Mas ela foi. Eu pedi quatro convites mas sei lá porque ela me deu cinco, quer dizer, eu sei porque, porque aquele menino ia aparecer no meu caminho e ia me pedir um convite, e eu daria o convite a ele e me apaixonaria por ele naquele instante, não sei se foi por causa do sotaque argentino ou por causa do sorriso que eu recebi de agradecimento. Foi por isso, ou pra isso, que a mãe do André me deu cinco convites.
Meus pais e minha irmã chegaram quinze minutos atrasados, o Segurança já queria fechar a porta do teatro mas eu insisti pra ele esperar mais um minutinho. Nossos convites eram para a frisa, eu não tinha a mínima idéia de que raio era isso, mas fomos orientados a subir umas escadas e entrar por uma cortininha. A frisa é como se fosse um camarote, mas as poltronas são mais simples e fica praticamente no mesmo nível da platéia. Quase caí de costas quando, ao entrar, dei de cara com o argentino, já acomodado numa cadeirinha. Óbvio que se eu soubesse o que era uma frisa, saberia que os convites de uma frisa permanecem agrupados, e se eu dei um dos meus convites para o Pablo ele só poderia estar na mesma frisa que nós. Mas eu não sabia o que é uma frisa e por isso encontrá-lo lá dentro foi uma grande surpresa.
O fato é que eu não conseguia me concentrar na apresentação. Conversamos um pouco no intervalo, mas meus pais rapidamente monopolizaram a conversa. Ele contava para minha mãe que quando veio pra cá foi morar com a namorada, e não pude segurar uma risadinha quando ele olhou pra mim e rapidamente corrigiu: "quer dizer, ela não é mais minha namorada, não deu certo, e eu fiquei sem namorada e sem casa...". Quando a Orquestra voltou, eu só conseguia pensar em como faria para ver o Pablo de novo, como trocaríamos telefones, na frente dos meus pais. Eu já até estava imaginando que ia largar meus pais falando sozinhos, pra correr atrás dele no meio da rua ou pela escadaria do Municipal (aquelas cenas de filme), e dizer que eu tinha que vê-lo de novo.
Pablo faz parte do Movimento Humanista (que agora eu sei que é um movimento que eu também faço parte mesmo sem saber que esse movimento existia), e me entregou um folhetinho com os princípios do movimento, onde estava impresso o telefone da sede. Eu entendi assim: "Me liga". Quando saímos do teatro ele continuou conversando (com meus pais, claro, pois eles não davam uma folga), e foi então que fiquei sabendo que ele estuda jornalismo, e minha mãe, que a essa altura já devia ter percebido minha cara de deslumbrada, disse que eu também, e então o Pablo aproveitou a oportunidade e pediu meu telefone...e agora eu tô com dor de barriga imaginando se ele vai me ligar ou não.
O Pablo também é esse tipo de pessoa que consegue fazer a gente feliz com sua simples existência, e eu acho isso depois de duas horas de sua presença quase muda durante um recital de Natal. Quase muda: durante o intervalo, e também na saída, o Pablo falou muito...ele fala o tempo todo. E os seus olhos falam mais ainda. Olhos de quem tem paixão pela vida.
Fui embora com minha família andando pela sujeira do Centro, porque a chuva veio mas não levou a sujeira embora, e os mendigos continuavam jogados no meio da rua, e eu me preocupava em desviar das poças d'água com minha sandalinha branca de strass. Deixei pra trás o Teatro Municipal, os enfeites de Natal e o Pablo. O engraçado é que não aconteceu nada, mas aconteceu tudo, dentro de mim. Essa noite se condensou numa única imagem: os olhos do Pablo e o sorriso do Pablo me dizendo "Tchau, a gente vai se ver".
"Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, mas com tamanha intensidade que se petrifica, e nenhuma força jamais o resgata”.